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Outubro 15, 2024“Tento manter o mais possível as ligações a Portugal, quando me convidam para projetos aceito logo”, conta entusiasmado o engenheiro que saiu do país há 22 anos e está no CERN há 15. João Fernandes é o único emigrante da família. Sem planos para regressar porque a vida está na Suíça, na prática mantém-se mais perto do Porto do que muitos portugueses em Lisboa, ou noutra cidade à mesma distância de carro da capital do Norte, que Genebra está de avião. Em Portugal talvez não tivesse tido oportunidade de desenvolver a carreira como pôde fazer em Genebra e também por isso foi ficando.
João Fernandes é membro sénior do staff do laboratório europeu de pesquisa nuclear. Trabalha no departamento de tecnologias de informação e neste momento lidera um projeto que vai transformar a infraestrutura tecnológica de suporte à investigação que se faz na instituição. “Estamos a mudar o modelo de análise de dados para um modelo que incorpore diferentes tipos de infraestruturas”.
Até agora toda a infraestrutura de dados do laboratório estava on premise. Era comprada, instalada e configurada na organização ou em parceiros. “Neste momento isso já não chega, porque o modelo não é escalável na medida das necessidades que se antecipam”. A integração com ambientes cloud, de empresas ou dos centros de alto desempenho (HPC) espalhados pela Europa, a explosão da inteligência artificial e o desenvolvimento em aceleração da computação quântica, tornaram claro que “precisamos de um modelo que seja eficiente em termos de custo, mas também de proveito científico de forma holística e heterogénea”, explica.
Eeste é um projeto a vários anos, que envolve questões técnicas, de privacidade, soberania de dados, mas também geopolíticas, dada a natureza do laboratório financiado e apoiado por dezenas de países. É um projeto desafiante, dissemos nós. “Desafiante no CERN é quase tudo”, respondeu JoãoFernandes com um sorriso:
“No CERN todos os projetos são grandes e vão para além daquilo que qualquer empresa ou país sozinho poderia fazer naquela área”.
Este, por exemplo, prepara o futuro do laboratório, para se de facto esse futuro vier a passar pela construção de um novo acelerador, que será três vezes maior e trinta vezes mais potente que o Large Hadron Collider.
Esta escala de tudo o que se faz é um dos aliciantes de trabalhar no CERN, confessa João Fernandes. O ambiente internacional e multicultural e a forma como isso se estende para além do ambiente de trabalho é outro. “Trabalhamos com tantas nacionalidades ao mesmo tempo que é enriquecedor para a vida do dia-a-dia, até no ambiente familiar. A minha filha só tem colegas de nacionalidades diferentes na escola. A questão das línguas nunca foi um problema”. A nível profissional, João também não tem dúvidas de que “a densidade de gente com um nível científico elevado, que há num local como o CERN, moldaram aquilo que sou hoje”.
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João Fernandes é do Porto e formou-se na Faculdade de Engenharia da cidade. Quando terminou o curso continuou a fazer I&D na FEUP durante algum tempo. Teve ofertas para trabalhar em empresas em Portugal, mas preferiu tentar uma experiência internacional. Conseguiu uma bolsa para o CERN, onde passou dois anos. Nos seis seguintes, dividiu-se entre Genebra e Pasadena, nos Estados Unidos, a trabalhar para o Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech). Em 2011 assentou arraiais no CERN e na Suíça. Hoje não tem planos para regressar a Portugal. Casado com uma física italiana, que também trabalha no CERN, a vida está na Suíça mas a ligação a Portugal mantém-se o mais possível.
“Saio muitas vezes daqui à sexta-feira ao final do dia para ir passar o fim-de-semana ao Porto e regresso à segunda-feira cedo, ainda a tempo de trabalhar durante a manhã”.
No início as ligações entre as duas cidades limitavam-se a um voo diário, que era caro e incompatível com escapadinhas rápidas. Hoje há quatro, é mais fácil.
A partir da Suíça vai colaborando com projetos em Portugal, ou para benefício de Portugal, normalmente pro bono. Neste momento é membro do Conselho Consultivo do Programa Nacional de Ciência Aberta e Dados Abertos ( PNCADAI ) coordenado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, para a criação de centros de competência em gestão de dados de investigação em todo o país. É um dos oito avaliadores internacionais da iniciativa financiada pelo PRR. Está também envolvido na criação de um conselho científico na Suíça, que possa trabalhar com a FCT em Portugal e fomentar o intercâmbio de investigadores com o CERN. O projeto inspira-se num modelo de sucesso que já existe nos países nórdicos, conta.
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No CERN trabalham hoje cerca de 260 portugueses. Na equipa de João Fernandes também já houve alguns. Neste momento não há. Há gente de várias nacionalidades e só dois repetem a mesma. Ainda assim, o portuense concorda com aquela velha ideia: os portugueses a trabalhar fora facilmente dão nas vistas pela positiva.
“Quando há estruturas mais organizadas, em termos de aplicação de regras, parece-me que os portugueses são realmente mais esforçados e obtêm sucesso com relativa facilidade”. João tem conhecido vários na sua área profissional e noutras, num país onde não faltam compatriotas e onde, quando chegou, ainda havia o estigma de falar português. Era língua de quem trabalhava nas obras ou nas limpezas. O preconceito mudou e a realidade também.
Este artigo integra o Especial “À procura de uma vida “melhor”… porque sai cada vez mais talento qualificado de Portugal e o que encontra no destino?” com vários textos que pode ler no SAPOTEK ao longo dos próximos dias.
